As filhas de D. João VI de Portugal (com vídeo)

D. Ana de Jesus, por Nicolas-Antoine Taunay, 1816. D. Maria Teresa fotografada por Ludwig Angerer, sem data. D. Maria Isabel, por Bernardo López y Piquer, 1829.

D. João VI de Portugal e D. Carlota Joaquina geraram nove filhos ao longo de seu casamento. Destas nove crianças seis foram mulheres. Todas, em menor ou maior grau, tiveram trajetórias fascinantes, mas frequentemente são esquecidas pela história em detrimentos de seus irmãos homens. Conheça a seguir suas biografias.

D. Maria Teresa

D. Maria Teresa de Bragança foi a mais velha das seis filhas de D. João VI de Portugal com D. Carlota Joaquina. Ela nasceu em 29 de abril de 1793 no Palácio da Ajuda, oito anos após o casamento de seus pais e três após a sua consumação.

A infanta teve o título de Princesa da Beira até os 2 anos de idade, quando seu irmão varão D. Francisco Antônio nasceu. Apesar de D. Francisco Antônio ter morrido logo depois, o título seria assumido por seu outro irmão, o futuro D. Pedro I do Brasil.

Em 1808 D. Maria Teresa passou a residir no Rio de Janeiro ao lado de sua família. Na América do Sul, a infanta passaria a maior parte do tempo na companhia de sua mãe, que dividia seu tempo entre uma Chácara de Mataporcos e um Palacete na Praia de Botafogo.

Em 13 de maio de 1810, aos 17 anos, a infanta contraiu matrimônio com seu primo, o Infante D. Pedro Carlos da Espanha e Portugal, com quem teria um filho, o Infante D. Sebastião da Espanha e Portugal, que nasceu um ano depois.

D. Sebastião seria o primeiro príncipe a nascer na América e o primeiro neto de D. João VI.

Inicialmente no entanto ela não estava destinada a ser esposa do Infante D. Pedro. Sua mãe,  D. Carlota Joaquina, desejava que ela se casasse com seu tio, o Rei Fernando VII da Espanha, e a ajudasse a se tornar rainha do Vice-Reino do Prata.

No entanto, os planos de D. Carlota se viram frustrados pela intervenção de D. João VI. De qualquer maneira, D. Maria Teresa se casaria com um espanhol. Seu segundo marido foi seu tio Carlos de Bourbon, Conde de Molina, que foi um pretendente ao trono da Espanha.

Por ser irmão varão de Fernando VII, Carlos acreditava ser o legítimo sucessor do monarca em detrimento de sua sobrinha, a Rainha Isabel da Espanha. Desde 1789 a Lei Sálica, impedia as mulheres de aceder ao trono espanhol.

No entanto, como não foi capaz de gerar descendentes homens, Fernando VII derrubou a lei em maio de 1810 para dar lugar para a ascensão de sua filha. Isso acabaria gerando um conflito conhecido como Guerras Carlistas.

Durante grande parte de sua vida D. Maria Teresa defenderia os interesses políticos do marido, chegando até mesmo a fazer publicações em jornais onde apresentava argumentos que pretendiam validar as pretensões dinásticas de Carlos.

A filha mais velha de D. João VI se casou com Carlos de Bourbon, Conde de Molina em 1838, mas o casamento não gerou filhos. De qualquer maneira ela foi uma mulher de peso na política europeia do século 19, tendo sido descrita como uma mulher de personalidade forte.

Ela faleceu em 17 de janeiro de 1874 aos 80 anos, sendo a filha mais longeva de D. João VI.

D. Maria Isabel

Ao contrário de sua irmã mais velha, D. Maria Isabel não viveu até a velhice, mas nem por isso deixou de ter uma vida marcante. Ela nasceu no Palácio de Queluz, em 19 de maio de 1797, e foi a segunda filha de D. João VI.

Seu pai havia assumido a regência do Império Português em 1792 devido aos problemas mentais da Rainha D. Maria I de Portugal. De todas as filhas de D. João VI ela foi descrita como a aquela que mais se assemelhava a ele em personalidade.

D. Maria Isabel era calma, amável, introvertida e não tinha ambições políticas. No entanto, mesmo assim ela foi casada com seu tio materno Fernando VII da Espanha em 1816, quando contava com 19 anos.

Desde 1807 ela residia no Rio de Janeiro ao lado de sua mãe e irmãs, mas deixou o Brasil para partir rumo à Espanha após nove anos de permanência na América. Na Europa, ela se tornaria a segunda das quatro esposas de Fernando VII, mas sua união seria breve.

Apesar de ter sobrevivendo ao seu primeiro parto em 26 de dezembro de 1818, D. Maria Isabel morreria por complicações em sua segunda gestação. Sua morte foi literalmente trágica e causada por um grande engano.

Enquanto estava em trabalho de parto a infanta passou a não apresentar mais sinais de vida e os médicos decidiram fazer uma incisão em seu ventre para retirar a criança, acreditando que a paciente havia morrido. Mas eles estavam equivocados.

D. Maria Isabel sofria de eclâmpsia e havia entrado em coma. Quando as incisões começaram a ser feitas ela finalmente acordou, mas o estrago estava feito. Ela morreria de hemorragia em dentro de pouco tempo.

D. Maria Isabel tinha apenas 21 anos e a cena de sua morte foi grotesca para aqueles que a presenciaram. Tudo aconteceu no Palácio Real de Aranjuez e sua partida deixou Fernando VII abalado.

Seus restos mortais foram sepultados no Mosteiro de São Lourenço do Escorial.

Apesar de não ter cumprido com seu principal papel de esposa, o de gerar filhos que garantissem a permanência da Dinastia de Bourbon no trono da Espanha, D. Maria Isabel se tornou relevante em nível histórico pela fundação do Museu do Prado.

O museu, que abriga um grande acervo de arte, foi inaugurado em 19 de novembro de 1819, um ano após sua morte, e se tornou o museu mais importante da Espanha e um dos mais importantes do mundo, sendo visitado por milhões de turistas todos os anos.

O pintor Bernardo López Piquer em 1829 realizou uma obra onde D. Maria Isabel aparece em pé com um vestido vermelho e com o braço direito apontando em direção ao Museu do Prado, que se encontra ao fundo.

Foi uma forma de prestar homenagem a uma mulher que fez tanto pela cultura da Espanha e que teve um fim tão triste.

D. Maria Francisca

D. Maria Francisca foi a terceira filha de D. João VI. Ela foi descrita como uma mulher de personalidade forte e altiva e passou momentos marcantes ao lado da irmã, D. Maria Isabel, cuja  vida abordamos logo acima.

Da mesma maneira que a irmã, D. Maria Francisca também se casou com um parente espanhol. Seu marido foi Carlos de Bourbon, Conde de Molina, e ela partiu para a Europa a bordo do mesmo navio de D. Maria Isabel.

O casamento foi realizado em 22 de setembro de 1816 em Madrid. Entre 1818 e 1824 D. Maria Francisca teria três filhos. Seu último filho nasceria em 19 de outubro de 1824, exatamente dez anos antes da morte da própria infanta.

Embora não se saiba a causa exata da morte de D. Maria Francisca, acredita-se que o clima frio e chuvoso da Inglaterra tenha afetado seus pulmões. Ela faleceu na reitoria de Alverstoke, em Gosport, Hampshire.

Seu corpo foi inicialmente sepultado na capela-mor da Igreja de St. Mary’s do mesmo vilarejo, mas atualmente se encontra na Catedral de Trieste, na Itália.

D. Isabel Maria

Se as três filhas mais velhas de D. João VI tiveram existências relativamente apartadas de seus irmãos, com as nossas três próximas biografadas o cenário foi o oposto.

Para começar, D. Isabel Maria serviu como regente de Portugal por um período de quase dois anos. Isto teve lugar entre a morte de D. João VI e a ascensão de D. Miguel I ao trono. De fato, D. Isabel Maria esteve intrinsicamente ligada aos eventos que precederam a Guerra Civil Portuguesa.

Ela nasceu em 4 de julho de 1801 no Palácio de Queluz, mas sua chegada não foi motivo de grandes festejos. Quando a infanta veio ao mundo a Família Real Portuguesa se encontrava de luto pelo falecimento do príncipe D. Francisco Antônio.

Além disso, a situação política em Portugal nesta época não era das melhores, pois o país vivenciava um conflito militar com a Espanha e França, que ficou conhecido como Guerra das Laranjas.

De qualquer modo, D. Isabel Maria cresceu para se tornar uma personagem relevante na história portuguesa.

Como todos os seus irmãos, em 1808 ela passou a residir no Rio de Janeiro, onde viveu até 1821, quando voltou a Lisboa. A volta, entretanto, não seria feliz, pelo menos em termos políticos.

D. João VI e sua família encontraram um país muito diferente do que o que haviam deixado. O regresso do monarca à Europa foi uma exigência das Cortes Portuguesas e uma consequência da Revolução Liberal do Porto.

Agora uma parte considerável da classe política portuguesa era adepta do Liberalismo e exigia que profundas reformas políticas fossem feitas. Pressionado e sem muitos apoios, D. João VI viu-se obrigado a aceitar as demandas.

No entanto, a própria família do monarca se dividiu.

Tanto a mãe quanto o irmão mais novo de D. Isabel Maria, D. Carlota Joaquina e D. Miguel, tramaram duas rebeliões que trouxeram de volta o Absolutismo. Mas como estava receoso do grau de poder que ambos desempenhariam, D. João ordenou o exílio de D. Miguel na Áustria e D. Carlota Joaquina foi afastada.

A situação seguiria instável até a própria morte do monarca, o que aconteceu em 10 de março de 1826. Apenas quatro dias antes, em 6 de março, D. João VI havia nomeado um Conselho de Regência presidido pela infanta.

Esta regência duraria até 26 de fevereiro de 1828.

De maneira resumida, os eventos que se seguiram foram estes: após a morte de D. João VI houve uma divisão em relação à questão da sucessão dinástica. Enquanto algumas vozes clamavam pela ascensão de D. Pedro ao trono, outras afirmavam que o candidato mais adequado era o filho caçula do monarca, D. Miguel.

D. Pedro I a essa altura não era bem visto por grande parte da classe política de Portugal por ter proclamado a Independência do Brasil em 7 de setembro de 1822. De qualquer maneira, ele se tornou o novo rei, mas após um reinado de apenas três meses abdicou do trono em favor de sua filha mais velha.

D. Pedro também reclamou a presença de D. Miguel em Lisboa. Isso tinha um motivo: D. Isabel Maria deveria lhe entregar a regência. Além de se tornar regente também estava previsto que D. Miguel se cassasse com a sobrinha.

Mas as coisas não saíram como o esperado.

Apesar de ter jurado a Carta Constitucional em 04 de outubro de 1826, D. Miguel era um homem de ideologia conservadora. Era fortemente católico e já tinha dado mostras de ser um firme apoiador do Absolutismo. Agora não seria diferente.

Em 23 de junho de 1828 ele foi aclamado rei com o apoio da nobreza tradicional e do clero católico. Era o início a Guerra Civil Portuguesa. Em 13 de abril de 1831 D. Pedro deixaria o Brasil e partiria rumo a Portugal.

Na Europa D. Pedro reuniu um exército composto de mercenários e deu início a uma invasão a Portugal. O conflito deixou centenas de mortos e vítimas. D. Isabel Maria, profundamente católica e piedosa, dedicaria tempo e recursos para a reconstrução do país, principalmente as áreas rurais, que foram bastante afetadas.

Após passar por eventos tão conturbados D. Isabel Maria retirou-se da vida pública. Durante todo o reinado de D. Miguel ela manteve um contato restrito com o irmão e viveu no Palácio Marquês de Fronteira.

Também se sabe que ela se dedicou às práticas religiosas com afinco e chegou a ir algumas vezes a Roma visitar o Papa. Ela legaria grande parte de sua herança aos missionários irlandeses.

D. Isabel Maria foi uma mulher de saúde frágil, mas mostrou-se firme ao enfrentar grandes dificuldades para sustentar as ordens de seu falecido pai, monarca durante a sua regência. Ela faleceria em 22 de abril de 1876 aos 74 anos. Não se casou e não teve filhos.

D. Maria da Assunção

D. Maria da Assunção foi a penúltima filha de D. João VI. Ela nasceu em Mafra em 23 de outubro de 1806 e quando veio ao mundo seus pais já se encontravam afastados devido a intrigas.

Apenas um ano antes, em 1805, sua mãe havia orquestrado a Conspiração dos Fidalgos, que visava declarar D. João VI insano e, assim, ela mesma assumir a regência de Portugal. No entanto, os planos de D. Carlota foram frustrados e o casal passou a levar vidas separadas.

Enquanto D. João VI se estabeleceu em Mafra, D. Carlota vivia em Queluz, local onde D. Maria da Assunção viveu com seus numerosos irmãos até 1807, data na qual partiu para o Brasil.

Assim como sua irmã mais velha, D. Maria da Assunção não se casou. Ela também possui outra semelhança com outro de seus irmãos: era profundamente conservadora e tradicionalista. Isso a levou a apoiar seu irmão D. Miguel, de quem foi, inclusive, a irmã predileta.

D. Maria da Assunção teve uma vida curta. Durante a Guerra Civil Portuguesa, quando os liberais ocuparam a capital, ela retirou-se para Santarém com as tropas miguelistas, onde faleceu em condições miseráveis de um ataque de cólera.

Sua morte deixou D. Miguel devastado. D. Maria da Assunção tinha apenas 28 anos quando faleceu. Ela foi sepultada no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.

D. Ana de Jesus Maria

Se levarmos em conta a vida privada de todas as filhas de D. João VI, sem sombra de dúvidas D. Ana de Jesus foi a aquela que levou a mais escandalosa.

Ela nasceu em Mafra em 23 de outubro de 1806 e tinha apenas onze meses quando a Família Real Portuguesa partiu para o Rio de Janeiro a bordo de uma frota que foi escoltada pela Marinha Britânica.

Sendo assim, D. Ana de Jesus passou toda a infância e parte da adolescência no Brasil. Ela regressaria a Portugal em 1821, quando contava com 14 anos de idade. Apenas seis anos depois, em 1827, ela se casou com D. Nuno José Severo de Mendoça Rolim de Moura Barreto, então 2.° Marquês de Loulé.

Entretanto, a união foi recebida com escândalo. Apesar de D. Nuno José ser um importante nobre da corte e ser filho de um dos melhores amigos e confidentes de D. João VI, ele era considerado de status inadequado para uma infanta portuguesa.

Mas isso não impediu que D. Ana de Jesus se interessasse pelo jovem e ela não seria a única. A Infanta e regente D. Isabel Maria também apreciava D. Nuno José, mas seria D. Ana de Jesus que se envolveria romântica e sexualmente com ele.

Além da baixa posição social do amado outro fator foi motivo de desconforto para a corte portuguesa. D. Ana de Jesus se encontrava grávida. Quando D. Carlota tomou conhecimento da notícia providenciou o casamento da filha caçula às pressas.

A cerimônia teve lugar na Capela Real do Palácio de Queluz em 5 de dezembro de 1827. Apenas vinte e dois dias depois, em 27 de dezembro, a infanta deu à luz na Quinta do Peres  uma filha que se chamou D. Ana Carlota.

Como se tudo isso já não fosse o suficiente, D. Nuno José também era um fervoroso liberal e, devido à iminente chegada de D. Miguel a Portugal, D. Carlota Joaquina entrou em ação outra vez. Ela providenciaria a ida do casal para a Inglaterra.

Mas a felicidade do casal duraria pouco. O envolvimento, que se iniciou como uma fervorosa paixão, acabou entrando em colapso poucos anos depois e em 1835 D. Ana de Jesus e o marido passaram a levar vidas separadas.

Enquanto a infanta se estabeleceu em Roma, o marquês de Loulé regressou a Portugal, onde ele desempenharia o papel de Presidente do Conselho de Ministros em três ocasiões durante os reinados D. Maria II, D. Pedro V e D. Luís I.

Fontes:

ALVES, Joaquim Jaime B. Ferreira. Os Nascimentos dos Infantes D. Isabel Maria (1801) e D. Miguel (1802). Disponível em: < https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4991.pdf >. Acesso em 22. Dez. 2022.

D. Isabel Maria de Bragança: Regente de Portugal entre D. Pedro e D. Miguel. Disponível em: < https://drive.google.com/file/d/11FrDLkLCNCitgS8AK8UZb_Ax35CnOxT9/view >. Acesso em 24. Dez. 2022.

Isabel Maria (D.). Disponível em: < https://www.arqnet.pt/dicionario/isabelmaria.html iul.pt/bitstream/10071/18722/4/master_liliana_micaelo_matos.pdf >. Acesso em 25. Dez. 2022.

MATOS, Liliana Sofia Micaelo. A Regência da Infanta Isabel Maria (1826-1828). Disponível em: < https://repositorio.iscte-iul.pt/bitstream/10071/18722/4/master_liliana_micaelo_matos.pdf >. Acesso em 22. Dez. 2022.

María Teresa de Braganza y Borbón. Disponível em: < https://dbe.rah.es/biografias/26691/maria-teresa-de-braganza-y-borbon >. Acesso em 22. Dez. 2022.

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro: A história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos. 1° Edição. São Paulo: Leya, 2015.


Texto escrito por Fernanda da Silva Flores

Correção ortográfica por Gabriel Antônio Lázaro de Carvalho dos Santos

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