Os papéis de gênero na Roma Antiga

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O conceito de masculinidade na Roma Antiga difere bastante do atual. Primeiramente, devemos ter em mente que na Roma Antiga os homens eram vistos como os membros mais importantes da sociedade e de sua casa, cabendo a eles o exercício do poder tanto na vida pública quanto na privada. Saiba mais detalhes a seguir.

A importância e o papel do homem

A sociedade romana era profundamente patriarcal e a masculinidade tinha como premissa a capacidade de governar a si mesmo e a outros de status inferior; não apenas na guerra e na política, mas também nas relações sexuais.

Na Roma Antiga, os homens eram vistos como os membros mais importantes da sociedade e de sua casa.

Os homens tinham mais direitos, mais educação e mais oportunidades de trabalharem fora de casa em comparação às mulheres. Isso acontecia devido ao fato de na sociedade romana se pensar que a mulher estava destinada a ocupar exclusivamente o espaço familiar e desempenhar as funções de esposa e mãe.

Enquanto a imagem da mulher era associada ao lar e à maternidade, o homem era visto como provedor financeiro e chefe da família. Esta última função tinha um título específico, o de ‘pater familias’, que era geralmente o homem vivo mais velho de uma casa, que exercia autoridade sobre sua família.

O pater familias

As leis e tradições romanas estabeleciam que o ‘pater familias’ deveria ter destaque no seio familiar, possuindo um poder irrestrito sobre seus dependentes, incluindo sua esposa, filhos e escravos.

Mas a responsabilidade também vinha acompanhada de deveres.

Esperava-se que todo homem se tornasse pai de filhos saudáveis e os educasse para se tornarem futuros cidadãos de Roma, que comprimissem as leis, obedecessem as tradições, mantivessem o bem-estar de sua casa, honrassem suas famílias e deuses ancestrais e participassem da vida política e militar de Roma.

Também era uma prerrogativa dos ‘pater familias’ manter relações sexuais com seus escravos, independentemente se o ato fosse consensual ou não. Pelos padrões modernos praticamente todo homem romano seria visto como o que atualmente classificamos como ‘predador sexual’.

Os ‘patres familias’ tinham livre acesso aos seus escravos e, como foi citado anteriormente, podiam manter relações sexuais com eles, independentemente se os últimos aprovassem o ato ou não.

Parte da vergonha e humilhação de ser um ex-escravo ou filho de um ex-escravo, ou até mesmo o tataraneto de um escravo, era que eles eram vistos como receptáculos sexuais de seus senhores.

Práticas e conceitos sexuais

Sob essa perspectiva, o sexo, além de estar naturalmente ligado ao prazer e à reprodução, também estava ligado à autoridade e dominação.

Era considerado natural que os homens romanos se sentissem sexualmente atraídos por jovens adolescentes de ambos os gêneros e a pederastia era tolerada desde que o parceiro masculino fosse mais jovem e não fosse um cidadão romano.

É importante ressaltar que os conceitos “homossexual” e “heterossexual” não formavam parte do pensamento romano sobre sexualidade e nem ao menos existiam palavras que ilustrassem tais comportamentos.

Os romanos podiam desfrutar de atos sexuais com mulheres ou homens de status inferior, mas uma ressalva era feita: era imprescindível que seus comportamentos não revelassem fraquezas ou excessos, pois o autocontrole era tido como uma virtude essencialmente masculina.

Também era visto como vergonhoso e altamente reprovável um cidadão romano assumir um papel passivo em vez de ativo durante uma relação sexual.

Outro ato condenável na cultura romana era um homem fazer sexo oral em uma mulher porque demonstrava subserviência e servilismo ao gênero oposto. O sexo oral era tolerado entre homens e apreciado pelos homens quando era praticado por prostitutas, mas era considerado desagradável entre casais.

A efeminação de um cidadão romano também era percebida como ultraje e era amplamente condenada, eliminando totalmente a masculinidade do indivíduo.

Enquanto a sociedade romana tolerava um comportamento classificado atualmente como ‘predatório’ para os homens, por outro lado condenava totalmente as mulheres que gostassem de sexo, a menos que fossem prostitutas.

Embora ao homem romano fosse permitida uma conduta sexual mais liberal esperava-se que eles exercessem a virtude da autodisciplina, considerada um ideal masculino.

O ideal correspondente para uma mulher na vida sexual era a pudicícia. As damas romanas, independentemente de sua classe social, deveriam ter um comportamento recatado e demonstrar certa timidez.

Em suma, deveriam ser castas e modestas.

As virtudes e os padrões de comportamento

Como o homem era o padrão de comportamento na Roma Antiga, as virtudes eram naturalmente consideradas características masculinas.

Ao longo da Antiguidade, tanto na Literatura Grega quanto na Literatura Romana, homens e mulheres foram retratados estereotipadamente como apresentando características extremamente opostas, com os homens simbolizando as virtudes e as mulheres, os vícios.

Os homens eram descritos como fortes, corajosos, contidos e racionais. As mulheres, por sua vez, eram retratadas como medrosas, vingativas, autoindulgentes, ambiciosas, arrogantes e emocionalmente descontroladas.

Estudiosos modernos pensam que a hierarquia entre homens e mulheres na sociedade romana pode ser explicada como uma tentativa de os antigos romanos de se basearem na natureza humana.

A última característica tida como inexoravelmente feminina se viu baseada em argumentos pseudo-biológicos.

De acordo com a Teoria Hipocrática, as mulheres tinham uma constituição corporal mais úmida do que os homens.

Como as emoções eram consideradas úmidas pelos antigos, as mulheres eram mais suscetíveis a elas.

Além disso, acreditava-se que as mulheres desejavam e desfrutavam mais das relações sexuais do que os homens.

Também vale citar que a falta de controle feminino não se restringia às emoções e sexualidade. De acordo com a cultura romana, as mulheres também não tinham autocontrole em relação à comida e ao vinho.

Uma das principais características negativas atribuídas ao gênero feminino era a ambição e o desejo excessivos por luxo. Tendo isso em vista, não é de estranhar a forte campanha de difamação feita contra imperatriz e nobres romanas que tiveram aspirações políticas ou exerceram influência significativa na corte imperial.

Sendo assim, todas as características que faltavam às mulheres eram supridas pelos homens e uma clara divisão foi feita entre os dois gêneros. Recomendava-se até mesmo um certo distanciamento entre ambos.

Por exemplo, durante os primeiros dois séculos d.C., os soldados romanos foram proibidos de contrair casamento legal; a natureza masculina da disciplina militar romana foi uma das principais motivações para a proibição.

Como os romanos atribuíam às mulheres características que eram diametralmente opostas às virtudes masculinas, temia-se que o contato constante com o gênero oposto afetasse o desempenho dos soldados, levando-os à indisciplina, ineficiência e covardia.

Mulheres que fugiram do padrão

É importante ressaltarmos que as características masculinas e femininas citadas acima não necessariamente correspondiam ao comportamento dos romanos no cotidiano.

Os estereótipos mostram apenas como se esperava que homens e mulheres se comportassem, não como eles realmente se comportavam.

Nem todas as mulheres se comportaram como se esperava.

Os próprios escritores antigos reconheciam que havia mulheres ideais que ocasionalmente podiam apresentar virtudes “masculinas”, mas para isso elas deveriam suprimir seus vícios.

A Laudatio Turiae, uma lápide romana gravada com um epitáfio do final do século I a.C., apresenta o elogio de um marido à sua falecida esposa.

No texto os atos altruístas da esposa em defesa do marido são exaltados e é dito que a ela até mesmo suportara abusos verbais e afrontas físicas por parte dos adversários políticos do marido enquanto tentava defender a posição do marido publicamente.

A Imperatriz Lívia Drusila foi outra mulher louvável. Ela exerceu grande influência política durante o reinado de Augusto e, apesar de ser descrita por alguns autores antigos como ambiciosa e ardilosa, ela foi elogiada por não usar joias e vestes excessivas e por se dedicar à administração de sua casa e se manter digna e sempre equilibrada.

Em suma, os vícios eram aspectos estereotipadamente femininos, mas isso não significava que os vícios fossem necessariamente aspectos de todas as mulheres. Era possível que uma mulher tivesse qualidades masculinas e as duas mulheres citadas apresentaram esse comportamento.

‘Conclusão’

O fato de o homem ser visto como o ideal de comportamento na Roma Antiga e sua natureza ser ‘detentora’ de todas as virtudes necessárias para o progresso e bom funcionário da sociedade levou à inferiorizarão do status da mulher na civilização romana.

Enquanto aos homens coube o desempenho da vida pública as mulheres viram-se relegadas a um papel secundário, sendo vistas como essencialmente mães e esposas e, como consequência, foram privadas de direitos políticos e da participação da vida pública em grande escala.

Virtudes como força, coragem, racionalidade e autocontrole foram tomadas como traços sobretudo masculinos.

Isso resultou na ‘conclusão’ de que o homem era o detentor de sabedoria e razão e que deveria exercer controle sobre as mulheres na sociedade romana. Isso pode ser basicamente definido como uma tentativa de justificar a hierarquia entre homens e mulheres com base na natureza humana.

Fontes:

ASIKAINEN, Susanna. Chapter 2 Masculinities in the Ancient Greco-Roman World. Disponível em: < https://brill.com/display/book/9789004361096/BP000008.xml >. Aceso em 15. Nov. 2022.

FREISENBRUCH, Annelise. As primeiras-damas de Roma: as mulheres por trás dos Césares. (Tradução de Andrea Gottlieb). 1° Edição. Rio de Janeiro: Record, 2014.

Oral sex, masturbation, bestiality and sex positions in Ancient Rome. Disponível em: < https://factsanddetails.com/world/cat56/sub369/entry-6316.html >. Aceso em 15. Nov. 2022.

PHANG, Sara Elise. The Families of Roman Soldiers (First and Second Centuries A.D.): Culture, Law, and Practice. Disponível em: < https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/036319902236623?journalCode=jfha >. Aceso em 15. Nov. 2022.

Imagem: Estátua de Lívia Drusila em oração, datada da segunda metade do século I d.C., em exibição nos Museus Vaticanos. Augusto de Prima Porta, estátua de mármore também datado do século I d.C.


Revisão textual de Gabriel Antônio Lázaro de Carvalho dos Santos


Imagem: Estátua de Lívia Drusila em oração, datada da segunda metade do século I d.C., em exibição nos Museus Vaticanos. Augusto de Prima Porta, estátua de mármore também datado do século I d.C.

Publicado por Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores é graduada em História pela UNOPAR (2018) e possuí pós-graduação em Gestão e Organização da Escola com Ênfase em Supervisão Escolar (2019) também pela UNOPAR. Fundou o site Rainhas na História em setembro de 2016. Reside em Itajaí, Santa Catarina, Brasil.

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